O Limpador de Quintais

13 de fevereiro de 2016

O Limpador de Quintais

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O LIMPADOR DE QUINTAIS

 FAVELA ESPERANÇA

Antônio José dos Santos era operário da construção civil. Pedreiro dos bons, segundo diziam algumas pessoas.

Já tinha perdido a conta, há muito tempo, da quantidade de obras que tinha realizado. Trabalhador, nunca lhe faltara serviço. Sempre que percebia que uma obra estava para acabar já “corria atrás de outra”. Não podia vacilar. Afinal, além da “Dona Maria”, havia ainda seis “bruguelos” para dar de comer.

Moravam em um barraco de primeira. Quarto, sala, cozinha e banheiro. Tudo de madeira. Tinha conseguido “na marra”, como gostava de dizer, cercar um pedaço de chão atrás do barraco e, ali, sua mulher Lucília, “nêga veia”, tinha uma criação de patos e galinhas – “Para uma emergência” – dizia.

A vida era boa. Pobres como muitos pelo país afora, mas felizes como só eles conseguiam ser.

Tinham até uma televisão colorida! De segunda mão, era verdade, mas estava novinha. Só uma vez ou outra, quando esquentava muito, que ela costumava desligar sozinha. Mas era só esperar alguns minutos e ligar novamente que a “bicha” funcionava que era uma beleza. Antônio só não gostava era quando isso acontecia na hora do jogo de futebol.

– Droga! Logo agora! Parece “té que é marcação” – dizia sempre.

Também podia até gravar que era a mesma coisa que Lucília dizia na hora da novela.

Isso, no entanto, era o máximo de impropérios que eram capazes de cometer.

Católica, a família não perdia as missas aos domingos, celebradas pelo padre Dico (ele não gostava de ser chamado de Raimundo, seu verdadeiro nome), que nutria por aqueles paroquianos um carinho especial. Não podia negar que gostava deles e, sempre que se encontrava com Dª. Lucília, perguntava pelo marido e pelos filhos. Sabia o nome de todos.

– Bom dia, Dª. Lucília! Como vai “seu” Antônio? E os meninos: Toninho, Pedro, Augusto, Teresa, Dudu e Nazaré?

– Tudo bem, padre Dico, com a graça de Deus – respondia a mulher.

Raramente a conversa entre os dois passava disso. E nem precisava. Também podia ser gravada.

A vida estava boa para Dª. Lucília e a família. O padre sabia disso e era o que lhe bastava.

Toninho, que na verdade era Antônio José dos Santos Filho – “(o primeiro filho homem tem que levar o nome do pai – dizia o Antônio, pai) já tinha vinte anos de idade e era pedreiro também. Estava aprendendo bem a profissão e mais cedo ou mais tarde seria tão “maceteado” quanto o velho. Namorava com Lucinha, moradora da vizinhança mas, como era muito nova e ainda estudava – se alguém prestasse atenção perceberia que ali as moças estudavam mais que os rapazes – não pensava em se casar ainda.

Isso aborrecia muito a Toninho que não via nenhum empecilho quanto ao seu casamento. Afinal, no barraco dos pais poderia muito bem caber sua mulher – pensava.

– “Onde cabe oito cabe nove” – dizia.

Lucília não pensava assim e vivia dizendo ao filho para guardar alguns trocados e tratar de construir seu barraco também. Tinha até ouvido falar de uma nova “invasão” ali mesmo, perto da favela Esperança, onde moravam. Achava que o filho não podia perder aquela oportunidade… mas perdeu.

Pedro era lavador de carros ou, “flanelinha”, como chamavam alguns. Dezessete anos, tinha estudado pouco, mal assinava o nome. Mas era falastrão. Sabia sempre o que estava acontecendo pelo mundo e era quem trazia as novidades para casa.

Tinha ouvido falar que o país “tava com problema de muita gente desempregada”.

Não entendia muito bem aquilo. Fora seu pai e o irmão mais velho, todas as pessoas com quem ele convivia não tinham emprego, mas tinha sido sempre assim. O que então estava mudando? Ele achava que nada. Pobre tinha mais era que lutar mesmo. As coisas não estavam fáceis, nem nunca tinham sido. Mas, apesar de tudo, sempre conseguia o que queria. Não era muito, era verdade. Mas, pelo menos conseguia o suficiente pra tomar uns goles nos fins de semana e ainda “dava um troco pra velha. Pra ajudar no “rango”.

O pai, que nunca tinha bebido na vida, não gostava muito desse costume de seu filho.

Não esquentava muito a cabeça porque, afinal, Pedro nunca tinha passado dos limites. E, cá pra nós, gostava muito daquele filho esperto.

– Cumé que esse menino sabe de tanta coisa se nem “gostá de lê” nos “livro” ele gosta? – comentava Antônio com sua mulher.

Augusto, de catorze anos, já estava acompanhando o pai no trabalho. Afinal, pensava o pai, o que era bom para ele, certamente seria bom para seus filhos também.

Na verdade, o homem não tinha porque pensar de forma diferente. Entendia que se você tinha tudo o que queria, era feliz, mesmo se o “tudo” fosse tão pouco.

Os fatos indicavam que, dentro em breve, haveria mais um operário da construção civil na família.

Teresa, de onze anos, ajudava a mãe nas tarefas de casa e na lavagem de roupas “pra fora”. Já era capaz de preparar o “feijão” sozinha. Muitas vezes a mãe, no sufoco, deixava por sua conta todo o serviço da cozinha e a menina “tirava de letra”. Na escola, ia mal, quando ia. Não lhe sobrava muito tempo para essas coisas.

O padre Dico achava que esse era o grande defeito daquela família. Não se preocupava com a educação dos filhos.

Dudu, de oito anos, era um menino calado que costumava ficar muito tempo brincando com a irmãzinha Nazaré, de cinco anos. Os dois nunca tinham ido à escola. Na verdade, era sua tarefa cuidar da pequenina. Ninguém mais tinha tempo para aquilo. Era apenas supervisionado pela mãe ou pela irmã Teresa.

Viviam assim. Simples e felizes.

 

 

 

 

Sábado de tarde. Dia de jogo de futebol no campinho da invasão.

Muita gente ia assistir ao clássico da favela da esperança. Era o Flamengo x Botafogo, como poderia ser um Grêmio x Internacional ou Palmeiras x Corinthians ou um Remo x Paisandu.

Toninho e Pedro jogavam ali. Toninho era goleiro, orgulho do pai.

Apesar de torcerem todos pelo time dos filhos, quaisquer que fossem, o resultado não interessava muito.

O que contava mesmo era a cervejada depois do jogo. Costumava sair uma grade, ou duas, ou três, ou…

Dudu observava e gostava do que via.

Lá pelas sete da noite, já escuro, as pessoas iam para suas casas e o campinho ficava sozinho, feliz, com cara de missão cumprida.

Dudu não sabia porque, mas gostava de ficar até o final e era sempre o último a ir para casa.

Costumava permanecer ainda alguns minutos como que ouvindo o campinho se gabar de sua importância.

Na baliza de escanteio, do lado esquerdo do campo, havia uma mangueira, enorme, frondosa, generosa com seus frutos. Quando acabava o jogo podiam-se ouvir os aplausos provenientes do farfalhar de suas folhas.

Durante a semana os dias passavam iguais.

Seis e meia da tarde o pai chegava em casa – estava trabalhando em uma obra próximo.

Dª. Lucília e os filhos, exceto Pedro, Toninho e Augusto, já estavam arrumados após um banho e preparavam-se para um jantar de arroz, feijão e um ou outro pedaço de carne de segunda.

Certamente não tinham um grande repasto, mas nunca lhes faltara algo à mesa nas três refeições diárias que a família fazia, geralmente junta. Ultimamente, faltava sempre o Pedro que nunca chegava em casa antes das dez da noite. Era quem mais trabalhava.

Depois do jantar, invariavelmente, todos sentavam-se em frente à televisão para assistir à novela que antecedia o noticiário. Quando começava essa parte da programação, a TV ficava sozinha na sala, ligada. Ninguém se interessava pelas noticias do dia.

Por isso, Antônio não ficava sabendo que o mercado de trabalho estava em baixa e que o país atravessava uma das maiores crises de desemprego de sua história, apesar de experimentar um aumento, até de certa forma considerável, em seu PIB.

Também não lhe adiantaria muito ouvir isso porque não ligaria as palavras PIB, globalização, reengenharia e outras, com desemprego e mercado internacional. Certamente não ligaria tudo isso ao fato de que, estando a obra já próxima de terminar, não tinha ouvido falar de nenhum “trampo” nas redondezas. Sabia que tinha vaga para pedreiro na construção de um Shopping, mas era muito longe de casa e ele não pensava em ir até lá. Tinha certeza de que logo ia aparecer alguma coisa por perto.

De manhã, Pedro disse pro pai que, ultimamente, tinha aparecido muita gente lá no ponto dele para vigiar carro e tinha quase que sair no tapa para garantir o seu local de trabalho.

– “Qual é? Essa cambada “num” tem mais o que fazer não, é?”.

A resposta para essa pergunta Pedro não sabia, mas era: “Não, não tem mais o que fazer”. Não que não procurassem, mas é que não havia mais onde procurar.

Nas ruas, mais pessoas vendiam bugigangas. Cada vez mais crianças pediam qualquer coisa. Mais difícil ficava tudo a cada dia.

– Mulhé – disse Antônio à esposa na hora do jantar – acho que os home tão ficando doido lá na obra. Tão mandando imbora os pedreiro antes da hora. Ainda tem muita coisa pra fazê e já tão começando a dispidir a peãozada. Tão falando que diz que tem que reduzir o custo. Não sei bem o que é isso mas acho que é coisa de doutô, mas, se for pra economizá, podiam começar a diminuir aquela cambada de “num faz nada” que fica lá nos escritório o dia todo coçando. É o dia todim oiando um pra cara do outro, lá, mexendo naqueles computador. Se é que eles sabe mexer naquelas coisas lá.

Antônio deixava claro que não topava muito com os “não faz nada” do escritório. Pensava, em sua maneira ingênua de raciocinar, que, trabalhar, era apenas fazer cair o suor do rosto e, quem passava o dia no ar condicionado, “mexendo nos computador” estava apenas embromando. O que ele não tinha notado era que, mesmo lá, no meio dos “não faz nada” e, principalmente lá, é que estava havendo uma enorme redução de pessoal. Aos poucos os escritórios iam esvaziando e mais pessoas sendo demitidas.

Um dia, logo após o almoço, o engenheiro reuniu os operários para lhes comunicar que, por falta de dinheiro, a obra teria que parar e que todos seriam dispensados, mas seria por pouco tempo porque a construtora estava passando por momentos difíceis e que, tão logo todas as dificuldades fossem superadas, as pessoas seriam chamadas de volta.

Antônio prestava atenção ao que dizia o engenheiro, apesar de não entender tudo muito bem. O fato é que, pela primeira vez na vida, estava desempregado e não tinha arrumado uma outra obra para trabalhar. O pior de tudo é que, como ele, estavam também sem trabalho dois de seus filhos: Toninho e Augusto. Os três trabalhavam na mesma obra.

Os operários receberam a indenização e foram embora.

Antônio não perdeu tempo e, junto com o filho Toninho, foi logo atrás de um outro local para trabalhar. Mandou Augusto pra casa.

Nada conseguiram naquele dia, no entanto.

Em casa, contou tudo pra mulher que não ficou muito preocupada. Afinal, o marido sempre conseguia dar um jeito para tudo. Não seria agora que as coisas iriam se complicar.

Os dias iam passando e pai e filhos não conseguiam trabalho. O dinheiro da indenização, que era pouco, logo acabaria e, aí…

Foi o que aconteceu.

Agora quem mantinha a casa era Pedro, sozinho, com o muito pouco que ganhava. Até a lavagem de roupa pra fora de Dª. Lucília estava rareando. As coisas começavam a faltar dentro de casa. A família já não demonstrava muita harmonia e o casal, em pouco tempo, começou a discutir por problemas que sempre existiram, mas que, só agora, começavam a incomodar.

Um dia, pela manhã, Antônio saiu mais uma vez à procura de trabalho. Iria até mesmo aos bairros mais distantes da cidade. Até aonde aguentasse, porque iria a pé.

Chegou a um local onde se construíam uns edifícios residenciais, mas nem mesmo teve a chance de perguntar por trabalho. Na entrada já havia uma placa onde se podia ler: “NÃO HÁ VAGAS”.

E procura em outra, e mais outra. A situação era sempre a mesma. Obras com o quadro de trabalhadores já completo, outras já em processo de demissão. Voltou pra casa desanimado. Chegou às dez horas da noite. Cansado. Não quis jantar.

No dia seguinte voltou a procurar trabalho.

 

 

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