KANSHIR – O DUELO DOS GUERREIROS DOURADOS

17 de fevereiro de 2016

KANSHIR – O DUELO DOS GUERREIROS DOURADOS

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Capa com nome

Tork, um povo nômade

 

 

 

 

Há milhares de anos, em uma região remota chamada Kaarp, uma tribo nômade vagava entre vales e montanhas.

               Eram os tork.

Excelentes arqueiros, viviam da caça e da pesca e de tudo o que a generosa mãe natureza lhes oferecia. Adoravam o sol (Kenitsch) e a lua (Muarfi) e acreditavam que cada estrela correspondia ao espírito de um tork que morrera. Conheciam profundamente plantas e raízes e suas aplicações no combate às doenças que, vez por outra, acometiam seu povo. Não eram muitas, posto que não tinham muito contato com outras tribos a não ser em raras ocasiões em que cruzavam com algum outro povo nômade. Infelizmente, nem sempre esses encontros eram pacíficos. Também acontecia de encontrarem algum viajante errante, aventureiro, que após serem acolhidos costumavam dar-lhes notícias do que acontecia pelo mundo afora.

Foi dessa maneira que Urk, o velho e sábio líder dos tork, soube que havia povos que tinham um rei que os liderava e que utilizavam armas muito melhores do que as suas que não passavam de arco e flecha, lanças e toscas facas, todas feitas de pedras, dentes ou ossos de animais. Além disso, usavam também machadinhas feitas de pedras ou de omoplatas de bisontes.

Ouvira falar de grandes facas feitas de um material que era extraído do solo e que após um complexo trabalho com fogo transformava-se em instrumentos longos, cortantes e perfurantes. Chamavam-nas de espadas, mas o viajante não soubera explicar como eram fabricadas.

Os tork viviam de certa forma muito tranquilamente.  Andavam segundo grandes círculos, uma vez que a experiência lhes ensinara que não deveriam se afastar muito do rio Plunk, palavra que em seu idioma significava “generoso”. Nada mais apropriado para designar aquele rio de águas calmas e límpidas que lhes oferecia uma enorme variedade de peixes e outros animais e que, após serpentear por centenas de quilômetros, acabava desaguando no mar, que eles chamavam de Koric, ou seja, aquele que não tem fim, não sem antes propiciar água fresca para beber e uma enorme área irrigada naturalmente, mas que os Tork, infelizmente, ainda não sabiam aproveitar. Koric havia presenteado o povo Tork com algo muito precioso: o sal. Em determinadas épocas do ano a maré subia e ocupava grandes depressões formando enormes lagos salgados. Com a descida da maré a água ficava retida e a evaporação solar deixava sedimentadas grandes quantidades de sal. Com o passar do tempo os tork aprenderam a fazer uso do sal na culinária e, o mais importante, passaram a usá-lo para a conservação da carne das caças.

Caçavam e pescavam utilizando-se sempre do arco e da flecha. Isso fez com que se tornassem exímios no manejo desses instrumentos.

Suas vestes e todos os seus utensílios domésticos eram feitos de pedra, do couro, chifres, ossos e dentes dos animais que caçavam. Vendo-se assim, parecia que os tork viviam em um paraíso, mas não era bem isso o que acontecia. Tinham um inimigo poderoso e cruel. Eram os gigantescos tigres “dentes-de-sabre”. Animais astutos e excelentes caçadores que, infelizmente, aprenderam a gostar da “carne de torks”. Não eram raros os ataques daqueles felinos que, quase sempre, terminavam com a perda de algumas pessoas.

Tudo isso preocupava o velho sábio Urk.

Não gostava do fato de serem nômades, muito embora todas as vezes que tocava no assunto no Conselho de Anciãos recebia a resposta de que os tork eram nômades “desde sempre”. Também lhe incomodava o fato de, por já ser avançado em anos, não encontrar ninguém que ele soubesse ser capaz de substituí-lo de imediato em caso de seu desaparecimento repentino. Ultimamente, no entanto, vinha observando o jovem Kérdom, filho de Abir um homem generoso e destemido e que, percebia-se, procurava passar todo o seu conhecimento ao seu filho e de Kalina cujo espírito já era agora uma estrela. Havia, no entanto, o fato de que além de ainda não estar “pronto” para assumir o comando da tribo, sabia que os anciãos dificilmente aceitariam pacificamente a liderança de um jovem. Mas ele era o melhor que havia. O tempo haveria de demonstrar.

Urk temia os tigres “dentes-de-sabre”. Para ele estava claro que não tinham meios de se proteger daqueles terríveis predadores. Sabia ser uma situação insustentável e tinha a clarividência de que um homem não pode viver com medo. Mas, como resolver aquela situação?

Mais uma vez os Tork se preparavam para levantar acampamento.

Tinham aprendido recentemente a criar algumas poucas cabras e ovelhas e, é claro, levavam-nas por onde quer que fossem. Aquilo era muito bom porque lhes permitia o conforto de ter leite sempre fresco paras as crianças e, em caso de falta de caça, o que raramente acontecia, sempre poderiam abater alguns macho entre os caprinos ou ovinos.

Na região de Kaarp, as quatro estações do ano eram nítidas e, agora, estavam sob um pesado inverno com temperaturas abaixo de zero. Costumava nevar nessas ocasiões, o que prejudicava ainda mais o deslocamento da caravana.

Não eram muitos, em torno de trezentos, embora os tork não soubessem disso, pois não tinham nenhuma noção de números ou escrita. Havia poucos homens jovens, em torno de oitenta. Os demais eram mulheres, crianças e idosos, alguns em idade muito avançada. Os tork não abandonavam seus velhos. Cuidavam deles até que morressem.

Os séculos de vida nômade lhes ensinaram uma técnica de montar e desmontar acampamentos cuja velocidade faria inveja aos grandes generais. Viviam em pequenas tendas de forma piramidal onde poderiam se abrigar no máximo quatro pessoas. Tamanho médio de uma família tork. Pelo fato de o número de homens ser bem inferior ao de mulheres, era permitido a um varão ter mais de uma esposa. Deveria, no entanto, ser capaz de dar a todas o mesmo nível de vida e cuidados sob pena de responderem por isso ao Conselho de Anciãos. Às mulheres era atribuída a responsabilidade de cuidar das crianças, aos homens, de cuidar das mulheres.

Todos faziam de tudo, no entanto, as tarefas domésticas ficavam sempre ao encargo das mulheres e o trabalho de caçar, pescar e guerrear era atribuição dos homens. Isso não impedia que um homem, se fosse necessário, preparasse algum medicamento de ervas para seus filhos, ou esposas, ou ainda para algum ente da tribo, enquanto nada impedia que, também, se necessário fosse, as mulheres fossem à caça ou à pesca ou mesmo que entrassem em combate. O mais importante de tudo era que sobrevivessem.

Havia algumas regras a serem obedecidas, dentre elas a proibição de união carnal entre membros da mesma família, ascendentes ou descendentes.

As uniões eram sempre motivo de grande festa e só se realizavam após o consentimento do Conselho de Anciãos, embora a última palavra fosse dos pais, ou seja, dois jovens só se uniriam com a aprovação do Conselho dos Anciãos, mas isso não significava que após a aprovação do Conselho a união teria que se realizar.

Os Tork caminhavam lentamente sobre uma camada de neve que não era muita espessa, mas o suficiente para dificultar-lhes os passos. O frio, este sim, era intenso e o vento cortante. Mas aquele povo tinha que se por em marcha, era como se fosse de sua natureza.

Urk tivera quatro filhos, mas nenhum deles restava vivo. O último morrera em combate com uma tribo inimiga que lhes cruzara o caminho, os outros três, os tigres “dentes-de-sabre” levaram. Talvez fosse este o real motivo porque tanto os temia.

Caminhavam em fila, com os homens mais fortes ora avançando à frente da caravana, ora retardando-se para verificar se algo ou alguém os seguia. Os cuidados eram muito grandes porque o inimigo poderia atacar a qualquer momento e vir de qualquer lugar. Era uma vida paradoxalmente tranqüila e perigosa.

Os receios, infelizmente, tinham fundamento.

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